Observa-se a situação de conflito entre as novas metodologias de trabalho e o bem estar social dos trabalhadores que são impelidos a aceitarem desafios diversificados com o propósito de honrarem seus postos de trabalho e conseqüentemente seus ganhos para o sustento da família. As empresas que hoje atuam de forma descentralizada, inclusive fisicamente, podem atuar em vários continentes ao mesmo tempo, dada a virtualidade das informações, passaram a exigir desdobramentos dos seus funcionários que vem desgastando a estrutura emocional, impactando diretamente no núcleo da família e, conseqüentemente na própria sociedade.
Enfocaremos essa temática com base na abordagem feita pelo escritor norte americano Richard Sennett, professor de sociologia da Universidade de Nova York e da London School of Economics em seu livro A Corrosão do Caráter (2009), editado no Brasil pela Editora Record, São Paulo, sobre a sociedade atual, demonstrando que os cidadãos tem sido afetados pelo regime de trabalho chamado de flexível.
Priorizaremos a questão do desgaste emocional provocado nos trabalhadores dentro desses novos conceitos que distanciaram as equipes entre si, dada a forte concorrência que se estabeleceu na corrida pela manutenção do posto de trabalho e os esforços para aumentar os ganhos, atingindo as metas impostas pelas empresas, concorrendo sempre a premiações, promoções e destaques diversos, que se constituem na mola mestra do capitalismo flexível, dentro do neoliberalismo globalizante.
Progresso e sociedade
Conflito. É o que se observa entre o desenvolvimento do capitalismo “flexível” promovendo crescimento estratosférico na economia, dando resposta considerada positiva ao atendimento das necessidades de consumo da população mundial que cresce aceleradamente e o sistema acachapante das garantias do trabalhador e as necessidades de qualidade de vida que vem sendo profundamente prejudicadas tanto para o trabalhador como para os seus familiares. A globalização vem seguindo exclusivamente os padrões econômicos neoliberais, com visível tendência ao beneficiamento das nações ricas, dos mega empresários e industriais, com a finalidade de acumular riquezas em detrimento do equilíbrio social, deixando à margem os valores humanos.
Na leitura do texto de COSTA Sergio “Quase crítica. Insuficiências da sociologia da modernidade reflexiva”, disponibilizado no site da scielo, acesso de 14/09/2010, nota-se as pesadas críticas apresentadas pelo autor, principalmente à tese da sociologia reflexiva de Giddens op. Cit. Ressalto a seguir três de suas observações que considerei mais contundentes: o processo de reflexividade social como justificativa para a situação econômica atual; a globalização como generalização da modernidade, e a teoria da sociedade de risco. Enfatiza o paradoxo entre controle e risco e a “dissincronia entre a espacialização das competências políticas estabelecidas e o desenraizamento geográfico dos riscos exponenciados pelos processos de transformação global”. Discorda da maneira como os dois estudiosos, Beck e Giddens encaram a globalização, como sendo uma necessidade do desenvolvimento, estabelecendo um novo formato em que a sociedade se adapta facilmente à realidade sem fronteiras.
Não se pode negar que as imposições da economia moderna, no pós revolução industrial e no pós II guerra mundial, trouxeram implicações bastante complexas que vem causando transtornos incomensuráveis para a sociedade, dentro da chamada sociabilidade humana. A metodologia neoliberal, seguindo os interesses imperialistas de acúmulo de capitais, desencadeou problemas no seio das famílias que dificilmente poderão ser contornados. A vida moderna vem girando num processo de extrema competitividade, desgastando os relacionamentos, prejudicando a saúde física e emocional dos trabalhadores e tirando-lhes o mínimo da qualidade de vida. A mencionada “sociedade de risco” protagoniza a era das angústias do consumismo desenfreado. Meditemos também sobre a flexibilidade da produção que já não obedece a fronteiras e o vigoroso aumento da capacidade produtiva das mega empresas e indústrias, traz instabilidade sistemática para os trabalhadores que já não vêem no estado o ator capaz de dar-lhes a proteção institucional tão necessária. Acredito que tudo terá de ser repensado, mais dias ou menos dias, será uma questão de continuidade, de sobrevivência. As estruturas e mega estruturas implementadas visando unicamente o enriquecimento dará lugar, um dia, pela força dos fatos, ao ator principal que é o homem, como no dizer do grande pensador grego, Protágoras: “o homem é a razão de todas as coisas”.
Trabalho & Automação
Richard chama a atenção para o desgaste que a badalada flexibilização do trabalho provoca para os trabalhadores que se vêem obrigados a aceitarem as imposições do mercado em nome da garantia dos postos de trabalho. Ele cita o caso bem interessante de uma padaria na cidade de Boston nos EUA, que ao passar por profunda modernização, trouxe alta produtividade, contudo, forte desestímulo aos trabalhadores de diversas etnias. Os padeiros viam-se compilados a operarem teclas de computadores a porem as mãos na massa, de forma literal. Para eles, acabou-se o orgulho de ser padeiros, pois, com a mesma especialização poderiam trabalhar em sapataria, oficinas ou fábricas. É a fase da automação total e da desilusão como profissionais, afirmou ele:
Dificuldade e flexibilidade são opostos no processo de produção comum do padeiro. Nos momentos em que as máquinas entram em pane, eles se veem de repente impedidos de cuidar do seu próprio trabalho – e isso ricochetea no senso do próprio trabalho. Quando a mulher na padaria diz “padaria, sapataria, gráfica, é só dizer”, seu sentimento pela máquina é de um tipo descontraído, simpático. Mas também, como me disse repetidas vezes, não é padeira. Essas duas declarações estão intimamente relacionadas. A compreensão que tem do trabalho é superficial; sua identidade como trabalhadora, leve.(...) Quando tudo nos é facilitado, como no trabalho que descrevi, tornamo-nos fracos; nosso compromisso com o trabalho se torna superficial, uma vez que não entendemos o que fazemos. Não é esse o mesmo dilema que preocupava Adam Smith? Creio que não. Nada era escondido do trabalhador na fábrica de alfinetes; muita coisa é escondida dos trabalhadores da padaria. O trabalho deles é muito claro, e, no entanto muito obscuro. A flexibilização cria distinções entre superfície e profundidade; aqueles que são objetos menos poderosos da flexibilidade são obrigados a permanecer na superfície.
E ao discorrer sobre a situação de risco em que a maioria tem de se embrenhar na atualidade competitiva, ressalta o desgaste emocional do trabalhador e de seus familiares nessas batalhas diárias pela sobrevivência. Ao mencionar o caso da senhora Rose, dona de um bar em Nova York que arrendou o estabelecimento a terceiros para entrar no concorrido mercado de trabalho, demonstra a frustração da mesma que depois de um curto espaço de tempo abandonou aquele status quo para retornar ao seu “mundo”, retomando as rédeas do velho “Trout Bar”: “Estar continuamente exposto ao risco pode assim corroer nosso senso de caráter. Não há narrativa que supere a regressão à média, estamos sempre ´começando de novo´”. Depois, enfatiza:
Essa história básica, porém, poderia ter tido um colorido diferente numa sociedade diferente. A dimensão sociológica da exposição de Rose ao risco está no modo como as instituições moldam os esforços do indivíduo para mudar sua vida. Vimos alguns dos motivos pelos quais as instituições modernas não são elas próprias rígidas e claramente definidas; a incerteza delas resulta de atacar a rotina, embora enfatizando atividades de curto prazo, pela criação de redes amorfas, altamente complexas, em lugar das burocracias de estilo militar. O risco de Rose ocorreu numa sociedade que busca desregular o tempo e o espaço.
Não devemos nos esquecer de que é o segmento do proletariado industrial produtivo, que luta contra a automação maciça das indústrias. Embora essa otimização tecnológica seja vantajosa para o acúmulo de capitais, a presença humana é imprescindível para o equilíbrio econômico e social.
Atualmente fala-se em flexibilização do trabalho, em equipes sem chefes, em significativas premiações, trabalho em casa e tantas outras inovações que, olhando assim, em primeira mão, imagina-se que o trabalhador esteja sendo valorizado, reconhecido, porém, tudo não passa de estratégias bem engendradas para aumento substancial na produtividade com o inevitável acúmulo de capitais por parte dos mega empresários e industriais. Veja o caso dos mineiros no Chile, as condições de trabalho eram as piores possíveis, altamente insalubres e certamente percebendo salários baixos, trabalhavam e muitos outros trabalham em minas pelo mundo a fora, no Brasil, inclusive, sem as condições mínimas de sobrevivência, portanto não deixando de trazer os valiosos minérios para as grandes corporações que pouco se importam pelas vidas humanas em questão. A estratégia da divisão do trabalho hoje é nunca permitir o conhecimento e entrosamento do trabalhador em toda a cadeia produtiva. Cada um cumpre a sua parte que é fazer um pouquinho do processo, isto garante o isolamento necessário para não interferir na inteligência da empresa que é sustentada por uma minoria preparada para não “abrir o jogo”, conseqüentemente, a produtividade fica garantida sempre e o trabalhador no “seu mundo” vai sendo distraído com os “reconhecimentos” oferecidos pela empresa. É, como frisou a professora Luci no Guia de Estudos da UMESP, 2009, um processo alienante, com atividades repetitivas e cronometradas sob rígido controle. “O trabalho, mesmo que rodeado por computadores e robôs de última geração não perdeu sua natureza alienante. O trabalhador continua alheio ao domínio do processo produtivo como um todo; continua apartado do seu produto de trabalho; permanece submetido á lógica da exploração”.
Neoliberalismo na sociabilidade humana
Não se tem dúvida de que o sistema neoliberal impõe pesado ônus sobre a classe trabalhadora que se vê obrigada a corresponder às exigências dos mega empresários nas suas ações de crescimento desmedido, num “eterno” acumular de riquezas. Os trabalhadores, no afã de manter seu posto de emprego, na luta pela sustentação de suas famílias, cedem a essas pressões, considerando a grande demanda de mãos em busca de qualquer oportunidade de trabalho. É uma situação desumana, sem muitas perspectivas de melhorias, pois que, com a globalização econômica e o total desinteresse dos governantes e das classes dominantes em mudar esse estado de coisas, observa-se que o problema da falta de sociabilidade humana se arrastará por muito tempo, desgastando ainda mais a sociedade de um modo geral e promovendo distância ainda maior entre as classes sociais, no deplorável desrespeito aos direitos do homem, conforme Declaração Universal editada pela ONU, Organização das Nações Unidas. De acordo com o notável texto do guia de estudos, 1ª edição, 2009, da Universidade Metodista de São Paulo, p. 17 a 20, de autoria de Marcelo Silva Carvalho, as gestões dos estadistas Ronald Reagan nos EUA e Margareth Thatcher na Inglaterra, fortaleceram ainda mais o sistema neoliberal com suas políticas de isenção do estado na economia, em linha com o pensamento de Hayek em contraponto ao keynesianismo. A queda do muro de Berlim e a descompensação da economia no leste europeu, surgiram como uma “ducha” nas pretensões dos trabalhadores em virem e vivenciarem relações mais humanas no trato mercado/mão de obra. Penso como os latinos que afirmavam que a virtude está no meio (in mediu virtus), por isso, não dá para viver sem a intervenção do estado na economia pois é o ator responsável para garantir o mínimo de sociabilidade humana e os direitos básicos dos cidadãos, porém, nota-se que a economia, excessos à parte, tem forte condição de se auto regular, pela lei natural de oferta e procura. Todavia, o estado tem de estar como sentinela nessas relações, garantindo o andamento saudável desse caminhar, mantendo o direito do chefe de família de sustentar dignamente sua casa, ele tem direito a uma moradia, e ao mesmo tempo, permitir a fluidez do mercado, sem o famigerado interesse de acúmulo de riquezas a qualquer custo. Sem maiores ilusões, para que isto se dê, é necessário que haja um empenho determinante como foi no caso da mobilização das grandes potências econômicas mundiais que se uniram para abafarem a crise econômica de 2008/09 e o mesmo que se deu em outras épocas. Isto deixou claro que se houver vontade se consegue. Diante disto, pergunta-se, por que, então, não se inicia essa tomada de posição, será preciso outra revolução francesa!?.
Acreditamos que a regulação do mercado pelo Estado, é parte de um complicado processo de dominação política dos chamados países em desenvolvimento. Acreditamos, que quando os órgãos que formam o comando dirigente e regulador do sistema financeiro internacional,( FMI, BID, etc.), determinam normas, regras, a serem seguidas por estes países dependentes e condenam o processo econômico interno dos mesmos interferindo nas ações de seu banco central nacional, estes grupos membros do sistema de agiotagem internacional a serviço do imperialismo, estão trabalhando em causa própria, estão procedendo em favor dos países imperialistas que praticam internamente o protecionismo, levantam barreiras alfandegárias para produtos externos, subsidiam os seus produtores, etc. Porém, condenam a mesma ação oriunda nos países economicamente dependentes. Acreditamos ainda, que ao acusarem o Estado ligeiramente protecionista de tolher a liberdade política, estão impondo a este mesmo Estado uma quebra de sua soberania, e fazendo pesar a mão reguladora do imperialismo internacional, que impede o avanço e entrada dos menores no clube dos grandes.
Desestatização
As propostas de privatização do neoliberalismo buscam o enfraquecimento do estado, priorizando o livre mercado, contudo, as experiências vem mostrando que o sistema desencadeia inflação, juros altos, crises econômicas e uma distância cada vez maior entre as classes sociais. Quem é rico fica ainda mais rico e quem é pobre não tem muitas chances para progredir. Privatizações, salvo alguns casos, normalmente beneficia grupos milionários, enfraquece o estado e provoca desemprego, pois, o primeiro ato da nova administração de uma empresa pública, ao ser privatizada, é o corte de uma infinidade de postos de trabalho. E o mais absurdo é que em muitas situações a compra de empresas públicas é feita com o dinheiro do próprio governo, ou seja, do povo que paga para ser, ato contínuo, prejudicado. São financiamentos facilitados do governo por meio de bancos sociais, como o BNDES, no Brasil.
A teoria de Keynes veio como uma resposta ao liberalismo praticado pela economia de mercado que pregava a não intervenção do Estado na economia para que não fosse colocada em perigo a liberdade das empresas. Para Keynes o desenvolvimento dependia de políticas sociais voltadas para assegurar o pleno emprego e a redistribuição de renda por meio do controle estatal de preços, da inflação e dos salários. A escola keynesiana se fundamenta no princípio de que o ciclo econômico não é auto-regulador como pensavam os neoclássicos, uma vez que é determinado pelos interesses individuais dos empresários. É por esse motivo, e pela ineficiência do sistema capitalista em empregar todos que querem trabalhar que Keynes defende a intervenção do Estado na economia. O mercado econômico privado não é capaz e nem tem interesse em criar políticas de gestão que beneficie o trabalhador e as necessidades públicas, por isso o Estado tem que assumir essa tarefa. Dessa forma o Estado usa das suas ferramentas para regular as falhas que ocorrem de tempos em tempos no sistema capitalista. Suas principais armas são: a política fiscal (impostos X gastos governamentais) e a política monetária (inserção ou retirada de dinheiro do mercado).
Chegando à conclusão deste despretensioso trabalho, concluímos que a divisão de trabalho dentro do capitalismo flexível, inovou totalmente as rotinas de trabalho, tornou-se altamente produtiva, imprimiu rapidez inacreditável nas cadeias produtivas, contudo, tolhe a iniciativa do trabalhador e, sem saudosismo, tira o romantismo das velhas profissões, como no caso dos padeiros de Boston, ou como na conhecida melodia brasileira, no estilo raiz, “Mágoas de um Boiadeiro”, que demonstra a saga de um peão de boiadeiro, chorando a profissão perdida, no atropelo do progresso. As mega empresas hoje atuam com unidades em todos os continentes, de maneira transversal, garimpando mão de obra barata, matéria prima adequada, conquanto, nunca optando pelas preferências do trabalhador e de suas famílias. Todos têm de seguir essa dinâmica para não ficarem à margem do mercado efervescente.
Bibliografia
SENNET, Richard. A Corrosão do Caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. São Paulo: Editora Record, 2009.
Site da scielo, acesso de 14/09/2010
Guia de Estudos da UMESP, 2009
Portal Espaço Academico- www.espacoacademico.com.br

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