segunda-feira, 29 de agosto de 2011
O Samba de Roda em Cachoeira- Bahia
http://www.youtube.com/watch?v=DQNV2W7JsOQ&feature=related
As transformações ocorridas nos batuques ao longo da história cultural dos negros
estabelecidos no Brasil, acabaram criando classificações capazes de distinguir diversas
formas de práticas d danças e cantos advindos da África através de seus descendentes.
Em inicio do século XIX, o reflexo de uma música produzida pelas classes populares
resultou em processo de nacionalização e até mesmo de branquização 2 das danças e
dos sons introduzidos pelos africanos. Desta forma, acabou determinando no plano cultural
brasileiro uma espécie de classificação e/ou divisão dos batuques em: batuques africanos e
de seus descendentes; batuques de negros livres ou libertos ; e os batuques dos brancos
da classe média. De certo modo, os batuques, depois denominados lundu, acabaram sendo
uma apropriação dos batuques dos batuques africanos, fossem eles de afros-descendentes
ou de escravos libertos.
Mesmo no campo dos primeiros estudos do folclore realizados no Brasil, a idéia de cultura
mestiça era ultrapassada pela idéia de pobreza das tradições populares .
Com o mestiçamento dos costumes, tornaram-se menos ostensivos os batuques, obrigando
os negros às novas táticas de preservação e de continuidade de suas manifestações culturais.
Segundo SODRÉ:
Os batuques modificaram-se, ora pra se incorporarem às festas populares de
origem branca, ora para se adaptarem à idéia urbana. As músicas e danças
africanas transformaram-se, perdendo alguns elementos e adquirindo outros, em
função do ambiente social (...) desde a segunda metade do século XIX,
começaram a aparecer no Rio de Janeiro (...) traços de uma música urbana
brasileira a modinha, o maxixe, o lundu, o samba...
Durante as primeiras décadas do século XX, o centro dos debates sobre identidade nacional
se direciona cada vez mais para os mulatos e o homem urbano. Exatamente no campo da
música, o samba vira símbolo nacional. A valorização pelas coisas negras e pelas coisas
brasileiras é uma das explicações mais difundidas envolvendo a definição da identidade
nacional brasileira no inicio do século XX. O debate intelectual brasileiro suscitado
associado o samba como questão de identidade nacional.
Na década de 60, os intelectuais brasileiros começaram a chamar atenção para as
transformações que estava ocorrendo com as manifestações populares. Até então, a
produção acadêmica tratou o samba como folclore e como tal, deveria manter a sua
forma original, que depois venho a se transformar em música nacional. Sua avaliação sobre
o surgimento do samba como elemento formador de uma identidade nacional, passa
necessariamente pela união entre as elites da sociedade brasileira e as classes populares,
entre o erudito e o popular. A base de sustentação é a idéia de miscigenação:
Não estou querendo negar o importantíssimo papel afro-brasileiro na invenção
do samba. Também (reafirmo uma vez mais) não quero negar a existência de
uma fonte repressão à cultura popular afro-brasileira, repressão que influenciou
decisivamente a história do samba. Minha intenção é apenas complexificar esse
debate, mostrando como, ao lado da repressão, outros laços uniram membros da
elite brasileira e das classes populares, possibilitando uma definição da nossa
nacionalidade (da qual o samba é apenas um dos aspectos) centrada em torno do
concito de miscigenação. (VIANA, 1998, p.152).
Os batuques herdados da tradição africana têm, por todo território brasileiro, uma variedade
de ritmos, de coreografias, de instrumentos, de significados, enfim constituem-se como
praticas culturais em varias manifestações populares. Compreender as denominações e
conceitos utilizados para identificar é distinguir os samba e os batuques em diversos
espaços do Brasil, proporcionando uma melhor compreensão sobre o que vem a ser
denominado de samba de roda baiano.
O samba de roda como folguedo tradicional brasileiro pesquisado por musicólogos como,
por exemplo, Mário de Andrade, Câmara Cascudo, Oneyda Alvarenga, entre outros, que
caracterizam o samba de roda como sendo um conjunto de pessoas, com coro e solo de
dançarinos.
Atribuindo-se ao samba de roda, aquele praticado em Cachoeira, não existia nenhum tipo
de proibição ou até censura a respeito das praticas de roda no centro da cidade entre os anos
40 e 60 do século XX.
Na modernidade, as formas de representação social do samba de roda em Cachoeira vivem
em mudanças oriundas, provenientes do próprio sistema capitalista. A definição de cultura
popular neste contexto necessita de uma estratégia de investigação que abranja as mudanças
tanto na produção, quanto na circulação e no consumo. O capitalismo contemporâneo não
precisa eliminar as culturas populares, ao contrario, ele inclusive, se apropria delas,
restruturando-as, recompondo o significado e a função dos objetivos e de suas crenças e
praticas. O samba de roda cachoeirense deixa de ser perseguido e/ou de resistência para ser
negociado e trocado por contratos comerciais, gravações de disco, realização de
apresentações. É, portanto, um afastamento de praticas culturais do cotidiano para praticas
do mercado.
Nas relações sociais que envolvem interesses culturais e de mercado, a expressão musical
do samba de roda convive com conflitos entre as partes contrates, contratadas e
intermediarias. Ao contrario do que acontecia nos anos 50 e 60 em que o samba de roda
cachoeirense era espontâneo, informal e sem agentes intermediários, essas mudanças
modernas na produção, circulação e consumo do samba de roda criaram uma relação
intercruzada entre cultura e consumo. O samba de roda tornou-se uma forma efetiva de
apresentar ganhos financeiros, uma vez que divertimentos passa a ser trabalhado e e uma
nova fonte de renda, exigindo definições e exercícios de papeis sociais dentro e fora dos
grupos de samba de roda . Um novo cenário surge na pratica musical do samba de roda:
esta dentro e fora dos palcos da Bahia e do Brasil.
O samba de roda enquanto expressão cultural pode estar sofrendo mudanças decorrentes de
um processo comercial ou de varejo, o que pode implicar a perda de sua originalidade,
devido a apropriação dos grandes centros urbanos das culturas populares para reforçarem
imagens pertinentes a veiculação comercial que fomentam as indústrias do lazer,
entretenimento e turismo. Esses centros urbanos, ao utilizarem comercialmente tais culturas
podem estar estilizando-as, transformando-as, deslocando os discursos originais do samba
de roda enquanto expressão cultural de uma identidade da cultura local e regional, para
atender a públicos específicos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
ARANTES NETO, Antonio augusto. O que é cultura popular. São Paulo: Brasiliense.
1981.
ARAÚJO, Nelson de. Pequenos Mundos: um panorama da cultura na Bahia; 01. O
recôncavo. Salvador: UFBA/EMAV/ Fundação Casa de Jorge Amado, 1986.
AYALA, Marcos. A cultura popular no Brasil. São Paulo: Ática, 1987.
BORNHEIM, Gerd. O conceito de tradição. In: Cultura brasileira: Tradição/ Contradição.
2ed. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 13-30.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é folclore. São Paulo: brasiliense, 1987.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 9 ed. Rio de Janeiro:
Ediouro, 1988. (Col. Terra Brasilis).
COELHO, Teixeira. O que é industria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1980.
MARCONDES. Marcos Antonio (ORG.). Enciclopédia da Musica brasileira: erudita
folclórica e popular. 2 ed. São Paulo: Art Editora, 1988.
ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e industria cultural. São
Paulo: Brasiliense, 1999.
ORTIZ, Renato.Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985.
SANTOS, Jocélio Teles dos. Divertimentos estrondosos: batuques e sambas no século XIX.
In: SANSONE, Lívio e SANTOS, Jocélio Teles dos (ORG.) Ritmos em transito sócioantropológico
da música baiana. São Paulo: Dynams; Salvador: Programa da Bahia e
Projeto S.A.M.A., 1997.
SIQUEIRA, Baptista. Origem do termo samba. São Paulo/ Brasília: IBRASA/ MEC, 1978.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. 2 ed. Rio de Janeiro: Maud, 1998.
TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo:
Editora 34, 1998.
As transformações ocorridas nos batuques ao longo da história cultural dos negros
estabelecidos no Brasil, acabaram criando classificações capazes de distinguir diversas
formas de práticas d danças e cantos advindos da África através de seus descendentes.
Em inicio do século XIX, o reflexo de uma música produzida pelas classes populares
resultou em processo de nacionalização e até mesmo de branquização 2 das danças e
dos sons introduzidos pelos africanos. Desta forma, acabou determinando no plano cultural
brasileiro uma espécie de classificação e/ou divisão dos batuques em: batuques africanos e
de seus descendentes; batuques de negros livres ou libertos ; e os batuques dos brancos
da classe média. De certo modo, os batuques, depois denominados lundu, acabaram sendo
uma apropriação dos batuques dos batuques africanos, fossem eles de afros-descendentes
ou de escravos libertos.
Mesmo no campo dos primeiros estudos do folclore realizados no Brasil, a idéia de cultura
mestiça era ultrapassada pela idéia de pobreza das tradições populares .
Com o mestiçamento dos costumes, tornaram-se menos ostensivos os batuques, obrigando
os negros às novas táticas de preservação e de continuidade de suas manifestações culturais.
Segundo SODRÉ:
Os batuques modificaram-se, ora pra se incorporarem às festas populares de
origem branca, ora para se adaptarem à idéia urbana. As músicas e danças
africanas transformaram-se, perdendo alguns elementos e adquirindo outros, em
função do ambiente social (...) desde a segunda metade do século XIX,
começaram a aparecer no Rio de Janeiro (...) traços de uma música urbana
brasileira a modinha, o maxixe, o lundu, o samba...
Durante as primeiras décadas do século XX, o centro dos debates sobre identidade nacional
se direciona cada vez mais para os mulatos e o homem urbano. Exatamente no campo da
música, o samba vira símbolo nacional. A valorização pelas coisas negras e pelas coisas
brasileiras é uma das explicações mais difundidas envolvendo a definição da identidade
nacional brasileira no inicio do século XX. O debate intelectual brasileiro suscitado
associado o samba como questão de identidade nacional.
Na década de 60, os intelectuais brasileiros começaram a chamar atenção para as
transformações que estava ocorrendo com as manifestações populares. Até então, a
produção acadêmica tratou o samba como folclore e como tal, deveria manter a sua
forma original, que depois venho a se transformar em música nacional. Sua avaliação sobre
o surgimento do samba como elemento formador de uma identidade nacional, passa
necessariamente pela união entre as elites da sociedade brasileira e as classes populares,
entre o erudito e o popular. A base de sustentação é a idéia de miscigenação:
Não estou querendo negar o importantíssimo papel afro-brasileiro na invenção
do samba. Também (reafirmo uma vez mais) não quero negar a existência de
uma fonte repressão à cultura popular afro-brasileira, repressão que influenciou
decisivamente a história do samba. Minha intenção é apenas complexificar esse
debate, mostrando como, ao lado da repressão, outros laços uniram membros da
elite brasileira e das classes populares, possibilitando uma definição da nossa
nacionalidade (da qual o samba é apenas um dos aspectos) centrada em torno do
concito de miscigenação. (VIANA, 1998, p.152).
Os batuques herdados da tradição africana têm, por todo território brasileiro, uma variedade
de ritmos, de coreografias, de instrumentos, de significados, enfim constituem-se como
praticas culturais em varias manifestações populares. Compreender as denominações e
conceitos utilizados para identificar é distinguir os samba e os batuques em diversos
espaços do Brasil, proporcionando uma melhor compreensão sobre o que vem a ser
denominado de samba de roda baiano.
O samba de roda como folguedo tradicional brasileiro pesquisado por musicólogos como,
por exemplo, Mário de Andrade, Câmara Cascudo, Oneyda Alvarenga, entre outros, que
caracterizam o samba de roda como sendo um conjunto de pessoas, com coro e solo de
dançarinos.
Atribuindo-se ao samba de roda, aquele praticado em Cachoeira, não existia nenhum tipo
de proibição ou até censura a respeito das praticas de roda no centro da cidade entre os anos
40 e 60 do século XX.
Na modernidade, as formas de representação social do samba de roda em Cachoeira vivem
em mudanças oriundas, provenientes do próprio sistema capitalista. A definição de cultura
popular neste contexto necessita de uma estratégia de investigação que abranja as mudanças
tanto na produção, quanto na circulação e no consumo. O capitalismo contemporâneo não
precisa eliminar as culturas populares, ao contrario, ele inclusive, se apropria delas,
restruturando-as, recompondo o significado e a função dos objetivos e de suas crenças e
praticas. O samba de roda cachoeirense deixa de ser perseguido e/ou de resistência para ser
negociado e trocado por contratos comerciais, gravações de disco, realização de
apresentações. É, portanto, um afastamento de praticas culturais do cotidiano para praticas
do mercado.
Nas relações sociais que envolvem interesses culturais e de mercado, a expressão musical
do samba de roda convive com conflitos entre as partes contrates, contratadas e
intermediarias. Ao contrario do que acontecia nos anos 50 e 60 em que o samba de roda
cachoeirense era espontâneo, informal e sem agentes intermediários, essas mudanças
modernas na produção, circulação e consumo do samba de roda criaram uma relação
intercruzada entre cultura e consumo. O samba de roda tornou-se uma forma efetiva de
apresentar ganhos financeiros, uma vez que divertimentos passa a ser trabalhado e e uma
nova fonte de renda, exigindo definições e exercícios de papeis sociais dentro e fora dos
grupos de samba de roda . Um novo cenário surge na pratica musical do samba de roda:
esta dentro e fora dos palcos da Bahia e do Brasil.
O samba de roda enquanto expressão cultural pode estar sofrendo mudanças decorrentes de
um processo comercial ou de varejo, o que pode implicar a perda de sua originalidade,
devido a apropriação dos grandes centros urbanos das culturas populares para reforçarem
imagens pertinentes a veiculação comercial que fomentam as indústrias do lazer,
entretenimento e turismo. Esses centros urbanos, ao utilizarem comercialmente tais culturas
podem estar estilizando-as, transformando-as, deslocando os discursos originais do samba
de roda enquanto expressão cultural de uma identidade da cultura local e regional, para
atender a públicos específicos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
ARANTES NETO, Antonio augusto. O que é cultura popular. São Paulo: Brasiliense.
1981.
ARAÚJO, Nelson de. Pequenos Mundos: um panorama da cultura na Bahia; 01. O
recôncavo. Salvador: UFBA/EMAV/ Fundação Casa de Jorge Amado, 1986.
AYALA, Marcos. A cultura popular no Brasil. São Paulo: Ática, 1987.
BORNHEIM, Gerd. O conceito de tradição. In: Cultura brasileira: Tradição/ Contradição.
2ed. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 13-30.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é folclore. São Paulo: brasiliense, 1987.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 9 ed. Rio de Janeiro:
Ediouro, 1988. (Col. Terra Brasilis).
COELHO, Teixeira. O que é industria cultural. São Paulo: Brasiliense, 1980.
MARCONDES. Marcos Antonio (ORG.). Enciclopédia da Musica brasileira: erudita
folclórica e popular. 2 ed. São Paulo: Art Editora, 1988.
ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e industria cultural. São
Paulo: Brasiliense, 1999.
ORTIZ, Renato.Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985.
SANTOS, Jocélio Teles dos. Divertimentos estrondosos: batuques e sambas no século XIX.
In: SANSONE, Lívio e SANTOS, Jocélio Teles dos (ORG.) Ritmos em transito sócioantropológico
da música baiana. São Paulo: Dynams; Salvador: Programa da Bahia e
Projeto S.A.M.A., 1997.
SIQUEIRA, Baptista. Origem do termo samba. São Paulo/ Brasília: IBRASA/ MEC, 1978.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. 2 ed. Rio de Janeiro: Maud, 1998.
TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São Paulo:
Editora 34, 1998.
domingo, 28 de agosto de 2011
sábado, 27 de agosto de 2011
A poesia de Jandira Costa
Sempre falamos da sensibilidade do poeta, este ser quase anonimo e muitas vezes incompreendido que na solidão de seu mundo tem a sensibilidade de captar as particularidades das coisas que nos cercam. O ser poeta é o ser especial, é sentir sem ser sentido. Jandira Costa nesta entrevista traduz muito da sensibilidade do escritor poeta. Conheçam mais desta candanga especial.
De lá pra Cá & Daqui pra lá
Nós temos com Portugal uma longa história que vai além a língua e do bacalhau, conheça agora as danças do Alentejo.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Do Alto do Zé do Pinho para o mundo
Um dos maiores nomes do hip hop brasileiro, mistura Côco, Repente , Embolada e faz um hip hop originalmente brasileiro.Você vai conhece-lo agora, aqui do Recife, do Alto do Zé do Pinho, ele é o Zé Brown.
Zé brown é um auto didata da música, um batalhador por melhorias de sua comunidade e um exemplo a ser seguido, um cara que usa a música para contar e perpetuar histórias.
O Trabalho e o capitalismo Flexivel
Observa-se a situação de conflito entre as novas metodologias de trabalho e o bem estar social dos trabalhadores que são impelidos a aceitarem desafios diversificados com o propósito de honrarem seus postos de trabalho e conseqüentemente seus ganhos para o sustento da família. As empresas que hoje atuam de forma descentralizada, inclusive fisicamente, podem atuar em vários continentes ao mesmo tempo, dada a virtualidade das informações, passaram a exigir desdobramentos dos seus funcionários que vem desgastando a estrutura emocional, impactando diretamente no núcleo da família e, conseqüentemente na própria sociedade.
Enfocaremos essa temática com base na abordagem feita pelo escritor norte americano Richard Sennett, professor de sociologia da Universidade de Nova York e da London School of Economics em seu livro A Corrosão do Caráter (2009), editado no Brasil pela Editora Record, São Paulo, sobre a sociedade atual, demonstrando que os cidadãos tem sido afetados pelo regime de trabalho chamado de flexível.
Priorizaremos a questão do desgaste emocional provocado nos trabalhadores dentro desses novos conceitos que distanciaram as equipes entre si, dada a forte concorrência que se estabeleceu na corrida pela manutenção do posto de trabalho e os esforços para aumentar os ganhos, atingindo as metas impostas pelas empresas, concorrendo sempre a premiações, promoções e destaques diversos, que se constituem na mola mestra do capitalismo flexível, dentro do neoliberalismo globalizante.
Progresso e sociedade
Conflito. É o que se observa entre o desenvolvimento do capitalismo “flexível” promovendo crescimento estratosférico na economia, dando resposta considerada positiva ao atendimento das necessidades de consumo da população mundial que cresce aceleradamente e o sistema acachapante das garantias do trabalhador e as necessidades de qualidade de vida que vem sendo profundamente prejudicadas tanto para o trabalhador como para os seus familiares. A globalização vem seguindo exclusivamente os padrões econômicos neoliberais, com visível tendência ao beneficiamento das nações ricas, dos mega empresários e industriais, com a finalidade de acumular riquezas em detrimento do equilíbrio social, deixando à margem os valores humanos.
Na leitura do texto de COSTA Sergio “Quase crítica. Insuficiências da sociologia da modernidade reflexiva”, disponibilizado no site da scielo, acesso de 14/09/2010, nota-se as pesadas críticas apresentadas pelo autor, principalmente à tese da sociologia reflexiva de Giddens op. Cit. Ressalto a seguir três de suas observações que considerei mais contundentes: o processo de reflexividade social como justificativa para a situação econômica atual; a globalização como generalização da modernidade, e a teoria da sociedade de risco. Enfatiza o paradoxo entre controle e risco e a “dissincronia entre a espacialização das competências políticas estabelecidas e o desenraizamento geográfico dos riscos exponenciados pelos processos de transformação global”. Discorda da maneira como os dois estudiosos, Beck e Giddens encaram a globalização, como sendo uma necessidade do desenvolvimento, estabelecendo um novo formato em que a sociedade se adapta facilmente à realidade sem fronteiras.
Não se pode negar que as imposições da economia moderna, no pós revolução industrial e no pós II guerra mundial, trouxeram implicações bastante complexas que vem causando transtornos incomensuráveis para a sociedade, dentro da chamada sociabilidade humana. A metodologia neoliberal, seguindo os interesses imperialistas de acúmulo de capitais, desencadeou problemas no seio das famílias que dificilmente poderão ser contornados. A vida moderna vem girando num processo de extrema competitividade, desgastando os relacionamentos, prejudicando a saúde física e emocional dos trabalhadores e tirando-lhes o mínimo da qualidade de vida. A mencionada “sociedade de risco” protagoniza a era das angústias do consumismo desenfreado. Meditemos também sobre a flexibilidade da produção que já não obedece a fronteiras e o vigoroso aumento da capacidade produtiva das mega empresas e indústrias, traz instabilidade sistemática para os trabalhadores que já não vêem no estado o ator capaz de dar-lhes a proteção institucional tão necessária. Acredito que tudo terá de ser repensado, mais dias ou menos dias, será uma questão de continuidade, de sobrevivência. As estruturas e mega estruturas implementadas visando unicamente o enriquecimento dará lugar, um dia, pela força dos fatos, ao ator principal que é o homem, como no dizer do grande pensador grego, Protágoras: “o homem é a razão de todas as coisas”.
Trabalho & Automação
Richard chama a atenção para o desgaste que a badalada flexibilização do trabalho provoca para os trabalhadores que se vêem obrigados a aceitarem as imposições do mercado em nome da garantia dos postos de trabalho. Ele cita o caso bem interessante de uma padaria na cidade de Boston nos EUA, que ao passar por profunda modernização, trouxe alta produtividade, contudo, forte desestímulo aos trabalhadores de diversas etnias. Os padeiros viam-se compilados a operarem teclas de computadores a porem as mãos na massa, de forma literal. Para eles, acabou-se o orgulho de ser padeiros, pois, com a mesma especialização poderiam trabalhar em sapataria, oficinas ou fábricas. É a fase da automação total e da desilusão como profissionais, afirmou ele:
Dificuldade e flexibilidade são opostos no processo de produção comum do padeiro. Nos momentos em que as máquinas entram em pane, eles se veem de repente impedidos de cuidar do seu próprio trabalho – e isso ricochetea no senso do próprio trabalho. Quando a mulher na padaria diz “padaria, sapataria, gráfica, é só dizer”, seu sentimento pela máquina é de um tipo descontraído, simpático. Mas também, como me disse repetidas vezes, não é padeira. Essas duas declarações estão intimamente relacionadas. A compreensão que tem do trabalho é superficial; sua identidade como trabalhadora, leve.(...) Quando tudo nos é facilitado, como no trabalho que descrevi, tornamo-nos fracos; nosso compromisso com o trabalho se torna superficial, uma vez que não entendemos o que fazemos. Não é esse o mesmo dilema que preocupava Adam Smith? Creio que não. Nada era escondido do trabalhador na fábrica de alfinetes; muita coisa é escondida dos trabalhadores da padaria. O trabalho deles é muito claro, e, no entanto muito obscuro. A flexibilização cria distinções entre superfície e profundidade; aqueles que são objetos menos poderosos da flexibilidade são obrigados a permanecer na superfície.
E ao discorrer sobre a situação de risco em que a maioria tem de se embrenhar na atualidade competitiva, ressalta o desgaste emocional do trabalhador e de seus familiares nessas batalhas diárias pela sobrevivência. Ao mencionar o caso da senhora Rose, dona de um bar em Nova York que arrendou o estabelecimento a terceiros para entrar no concorrido mercado de trabalho, demonstra a frustração da mesma que depois de um curto espaço de tempo abandonou aquele status quo para retornar ao seu “mundo”, retomando as rédeas do velho “Trout Bar”: “Estar continuamente exposto ao risco pode assim corroer nosso senso de caráter. Não há narrativa que supere a regressão à média, estamos sempre ´começando de novo´”. Depois, enfatiza:
Essa história básica, porém, poderia ter tido um colorido diferente numa sociedade diferente. A dimensão sociológica da exposição de Rose ao risco está no modo como as instituições moldam os esforços do indivíduo para mudar sua vida. Vimos alguns dos motivos pelos quais as instituições modernas não são elas próprias rígidas e claramente definidas; a incerteza delas resulta de atacar a rotina, embora enfatizando atividades de curto prazo, pela criação de redes amorfas, altamente complexas, em lugar das burocracias de estilo militar. O risco de Rose ocorreu numa sociedade que busca desregular o tempo e o espaço.
Não devemos nos esquecer de que é o segmento do proletariado industrial produtivo, que luta contra a automação maciça das indústrias. Embora essa otimização tecnológica seja vantajosa para o acúmulo de capitais, a presença humana é imprescindível para o equilíbrio econômico e social.
Atualmente fala-se em flexibilização do trabalho, em equipes sem chefes, em significativas premiações, trabalho em casa e tantas outras inovações que, olhando assim, em primeira mão, imagina-se que o trabalhador esteja sendo valorizado, reconhecido, porém, tudo não passa de estratégias bem engendradas para aumento substancial na produtividade com o inevitável acúmulo de capitais por parte dos mega empresários e industriais. Veja o caso dos mineiros no Chile, as condições de trabalho eram as piores possíveis, altamente insalubres e certamente percebendo salários baixos, trabalhavam e muitos outros trabalham em minas pelo mundo a fora, no Brasil, inclusive, sem as condições mínimas de sobrevivência, portanto não deixando de trazer os valiosos minérios para as grandes corporações que pouco se importam pelas vidas humanas em questão. A estratégia da divisão do trabalho hoje é nunca permitir o conhecimento e entrosamento do trabalhador em toda a cadeia produtiva. Cada um cumpre a sua parte que é fazer um pouquinho do processo, isto garante o isolamento necessário para não interferir na inteligência da empresa que é sustentada por uma minoria preparada para não “abrir o jogo”, conseqüentemente, a produtividade fica garantida sempre e o trabalhador no “seu mundo” vai sendo distraído com os “reconhecimentos” oferecidos pela empresa. É, como frisou a professora Luci no Guia de Estudos da UMESP, 2009, um processo alienante, com atividades repetitivas e cronometradas sob rígido controle. “O trabalho, mesmo que rodeado por computadores e robôs de última geração não perdeu sua natureza alienante. O trabalhador continua alheio ao domínio do processo produtivo como um todo; continua apartado do seu produto de trabalho; permanece submetido á lógica da exploração”.
Neoliberalismo na sociabilidade humana
Não se tem dúvida de que o sistema neoliberal impõe pesado ônus sobre a classe trabalhadora que se vê obrigada a corresponder às exigências dos mega empresários nas suas ações de crescimento desmedido, num “eterno” acumular de riquezas. Os trabalhadores, no afã de manter seu posto de emprego, na luta pela sustentação de suas famílias, cedem a essas pressões, considerando a grande demanda de mãos em busca de qualquer oportunidade de trabalho. É uma situação desumana, sem muitas perspectivas de melhorias, pois que, com a globalização econômica e o total desinteresse dos governantes e das classes dominantes em mudar esse estado de coisas, observa-se que o problema da falta de sociabilidade humana se arrastará por muito tempo, desgastando ainda mais a sociedade de um modo geral e promovendo distância ainda maior entre as classes sociais, no deplorável desrespeito aos direitos do homem, conforme Declaração Universal editada pela ONU, Organização das Nações Unidas. De acordo com o notável texto do guia de estudos, 1ª edição, 2009, da Universidade Metodista de São Paulo, p. 17 a 20, de autoria de Marcelo Silva Carvalho, as gestões dos estadistas Ronald Reagan nos EUA e Margareth Thatcher na Inglaterra, fortaleceram ainda mais o sistema neoliberal com suas políticas de isenção do estado na economia, em linha com o pensamento de Hayek em contraponto ao keynesianismo. A queda do muro de Berlim e a descompensação da economia no leste europeu, surgiram como uma “ducha” nas pretensões dos trabalhadores em virem e vivenciarem relações mais humanas no trato mercado/mão de obra. Penso como os latinos que afirmavam que a virtude está no meio (in mediu virtus), por isso, não dá para viver sem a intervenção do estado na economia pois é o ator responsável para garantir o mínimo de sociabilidade humana e os direitos básicos dos cidadãos, porém, nota-se que a economia, excessos à parte, tem forte condição de se auto regular, pela lei natural de oferta e procura. Todavia, o estado tem de estar como sentinela nessas relações, garantindo o andamento saudável desse caminhar, mantendo o direito do chefe de família de sustentar dignamente sua casa, ele tem direito a uma moradia, e ao mesmo tempo, permitir a fluidez do mercado, sem o famigerado interesse de acúmulo de riquezas a qualquer custo. Sem maiores ilusões, para que isto se dê, é necessário que haja um empenho determinante como foi no caso da mobilização das grandes potências econômicas mundiais que se uniram para abafarem a crise econômica de 2008/09 e o mesmo que se deu em outras épocas. Isto deixou claro que se houver vontade se consegue. Diante disto, pergunta-se, por que, então, não se inicia essa tomada de posição, será preciso outra revolução francesa!?.
Acreditamos que a regulação do mercado pelo Estado, é parte de um complicado processo de dominação política dos chamados países em desenvolvimento. Acreditamos, que quando os órgãos que formam o comando dirigente e regulador do sistema financeiro internacional,( FMI, BID, etc.), determinam normas, regras, a serem seguidas por estes países dependentes e condenam o processo econômico interno dos mesmos interferindo nas ações de seu banco central nacional, estes grupos membros do sistema de agiotagem internacional a serviço do imperialismo, estão trabalhando em causa própria, estão procedendo em favor dos países imperialistas que praticam internamente o protecionismo, levantam barreiras alfandegárias para produtos externos, subsidiam os seus produtores, etc. Porém, condenam a mesma ação oriunda nos países economicamente dependentes. Acreditamos ainda, que ao acusarem o Estado ligeiramente protecionista de tolher a liberdade política, estão impondo a este mesmo Estado uma quebra de sua soberania, e fazendo pesar a mão reguladora do imperialismo internacional, que impede o avanço e entrada dos menores no clube dos grandes.
Desestatização
As propostas de privatização do neoliberalismo buscam o enfraquecimento do estado, priorizando o livre mercado, contudo, as experiências vem mostrando que o sistema desencadeia inflação, juros altos, crises econômicas e uma distância cada vez maior entre as classes sociais. Quem é rico fica ainda mais rico e quem é pobre não tem muitas chances para progredir. Privatizações, salvo alguns casos, normalmente beneficia grupos milionários, enfraquece o estado e provoca desemprego, pois, o primeiro ato da nova administração de uma empresa pública, ao ser privatizada, é o corte de uma infinidade de postos de trabalho. E o mais absurdo é que em muitas situações a compra de empresas públicas é feita com o dinheiro do próprio governo, ou seja, do povo que paga para ser, ato contínuo, prejudicado. São financiamentos facilitados do governo por meio de bancos sociais, como o BNDES, no Brasil.
A teoria de Keynes veio como uma resposta ao liberalismo praticado pela economia de mercado que pregava a não intervenção do Estado na economia para que não fosse colocada em perigo a liberdade das empresas. Para Keynes o desenvolvimento dependia de políticas sociais voltadas para assegurar o pleno emprego e a redistribuição de renda por meio do controle estatal de preços, da inflação e dos salários. A escola keynesiana se fundamenta no princípio de que o ciclo econômico não é auto-regulador como pensavam os neoclássicos, uma vez que é determinado pelos interesses individuais dos empresários. É por esse motivo, e pela ineficiência do sistema capitalista em empregar todos que querem trabalhar que Keynes defende a intervenção do Estado na economia. O mercado econômico privado não é capaz e nem tem interesse em criar políticas de gestão que beneficie o trabalhador e as necessidades públicas, por isso o Estado tem que assumir essa tarefa. Dessa forma o Estado usa das suas ferramentas para regular as falhas que ocorrem de tempos em tempos no sistema capitalista. Suas principais armas são: a política fiscal (impostos X gastos governamentais) e a política monetária (inserção ou retirada de dinheiro do mercado).
Chegando à conclusão deste despretensioso trabalho, concluímos que a divisão de trabalho dentro do capitalismo flexível, inovou totalmente as rotinas de trabalho, tornou-se altamente produtiva, imprimiu rapidez inacreditável nas cadeias produtivas, contudo, tolhe a iniciativa do trabalhador e, sem saudosismo, tira o romantismo das velhas profissões, como no caso dos padeiros de Boston, ou como na conhecida melodia brasileira, no estilo raiz, “Mágoas de um Boiadeiro”, que demonstra a saga de um peão de boiadeiro, chorando a profissão perdida, no atropelo do progresso. As mega empresas hoje atuam com unidades em todos os continentes, de maneira transversal, garimpando mão de obra barata, matéria prima adequada, conquanto, nunca optando pelas preferências do trabalhador e de suas famílias. Todos têm de seguir essa dinâmica para não ficarem à margem do mercado efervescente.
Bibliografia
SENNET, Richard. A Corrosão do Caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. São Paulo: Editora Record, 2009.
Site da scielo, acesso de 14/09/2010
Guia de Estudos da UMESP, 2009
Portal Espaço Academico- www.espacoacademico.com.br
A Terceira Diáspora
A história da imigração africana para o Brasil vem sendo objeto de estudo e é tratado sobre diversos pontos de vista,mas, poucos pesquisadores produzem material sobre esta conexão atlantica atual.É o que pretende a dra.Goli Guerreiro,atropóloga baiana que acaba de publicar dois livros sobre o tema.
A Preocupação com o resgate da própria identidade e a ligação atual com a africanidade continental, serviu de inspiração para os livros.O livro A Trama dos Tambores é uma referencia para quem gosta de música e quer conhecer a música afrobaiana moderna.Ela conta a história do Olodum, Ilê Ayiê e tantos outros.
Lançado pela editora Currupio, criada há mais de 30 anos para publicar as obras de Pierre verger,os livros sobre o mundo negro no século XXI, de Goli Guerreiro,tem a benção daquela que lançou no Brasil a obra do mestre francês.
Desta forma Goli Guerreiro dá um novo significado para o que costumamos chamar de consciência negra
Bando de Teatro Olodum
Há anos encenando o cotidiano e história do afrobaiano, o bando de teatro Olodum virou uma referência nacional do teatro negro moderno, influênciando grupos e artistas negros por todo o Brasil. Ao atingir sua maturidade o grupo estréia uma nova montagem, onde mixa o teatro tradicional as novas tecnologias.
A comunicação de massa e seu impacto na sociedade
Nos últimos anos, as políticas neoliberais têm dedicado grande importância à educação para criar e sustentar sua hegemonia sobre outras ideologias, que com elas disputam um projeto de educação e de sociedade. A construção dessa hegemonia passa pela mudança do senso comum, especialmente no que se refere à transformação radical dos significados, categorias, conceitos e discursos que conferem um determinado sentido à realidade. Essa transformação do campo semântico modifica substancialmente tanto as possibilidades de leitura e compreensão da realidade, como também de intervenção na mesma.
Os meios de comunicação de massa são temas atuais e polêmicos. Até hoje, é freqüente a discussão se a televisão, tomando-se uma das mídias mais populares como exemplo, massifica o espectador, interfere no seu comportamento, informa ou deforma. Sob a óptica da questão educacional, o debate ganha novos ângulos, como se pode verificar nos saberes que as mídias e a comunicação em massa transmitem não se baseiam necessariamente em qualquer dado de experiência racionalizada. “A força destas autoridades deve-se ao fato de que nem todos podem construir um saber espontâneo, sobretudo o que seria útil conhecer. Daí a comodidade para conduzir sua vida, de um repertório de saber pronto. Daí também em contrapartida, o peso que possuem os meios de comunicação que o transmitem e as instituições que patrocinam à transmissão desse saber.
A disciplina em questão destaca os meios de comunicação em massa e seu impacto na sociedade; o segundo tem com escopo a sociedade globalizada e o consumo.
Quando se trata de conhecer ou querer “decifrar” as identidades, alguns autores enveredam pelo aspecto do consumo. Segundo LIPOVETSKY (2007), vivemos hoje numa fase do turboconsumidor, esta conceituada como a “passagem da era da escolha à era da hiperescolha, do monoequipamento ao multiequipamento, do consumismo descontínuo ao consumismo contínuo, do consumo individualista ao consumo hiperindivudialista” (idem, p. 104). Ou seja, uma fase que apresenta de forma “mais entrelaçada” as características de uma sociedade de produção e consumo de massa.
Mesmo que a globalização, uma palavra amplamente citada, ecoe como algo “conhecido”, vale citarmos o conceito de BUARQUE DE HOLANDA (1999) que diz que, num sentido geral, tal termo refere-se “a fenômenos transnacionais de grande escala como fluxos de capital, migrações massivas, regimes flexíveis de trabalho, telecomunicações, turismo e transferências culturais” (idem, p. 345) ou ainda, falar disso é falar também sobre formas altamente específicas e culturalmente determinadas através das quais as populações locais interagem, freqüentemente reagem e continuamente transformam processos transnacionais. O que é muito atraente nesse caso é a percepção de que pensar a globalização é pensar tanto a integração quanto à fragmentação, é pensar tanto a homogeneização quanto a diferenciação. (idem, p.345).
Portanto, entende-se que através da globalização o mercado consumista e as trocas econômicas e culturais entre as diversas pessoas se realizam hoje de modo ampliado e intenso (a internet, por exemplo, ajuda a expandir processos de trocas atualmente).
Sobre a Pele Negra
Ao analisar a obra do intelectual martinicano Frantz Fanon, é impossível não imaginar o impacto causado principalmente por “Pele Negra Mascaras Brancas”, livro escrito em 1952 e que virou referência para os movimentos anticolonialistas africanos e caribenhos, e porque não, também, para a incipiente articulação dos movimentos pela dignidade negra nas Américas, como o movimento negro brasileiro capitaneado por Abdias do Nascimento, e nos EUA movimentos civis como o Black Panthers e Black Power, dentre outros da década de 1960.
Natural da Martinica, ilha caribenha sob julgo Francês, Fanon nasceu em 1925, atuou na segunda guerra mundial lutando ao lado dos franceses. Posteriormente formou-se em medicina na cidade de Lyon, onde especializou-se em psiquiatria. Além disso, consta que também estudou filosofia e literatura, sendo grande admirador das obras de Hegel, Lenin e Sartre, referências constantes no livro. Após a conclusão dos estudos, Fanon passou a residir no continente africano, engajando-se na luta pela independência da Argélia como membro da Frente de Libertação Nacional. Já com leucemia, em 1961 escreveu seu também célebre livro “Os condenados da terra”. Morreu no mesmo ano, anterior à independência da Argélia.
Ainda morando na França e utilizando a observação sociológica e a própria vivência para compreender a relação opressora e inferiorizante com que a sociedade européia branca colonizadora tratava os imigrados afrocentricos, Fanon coletou dados e vivenciou experiências que constituíram-se na matriz estimuladora para escrever “Pele Negra, Máscaras Brancas”. Conforme descreve no livro, ele também passou pela cólera racista do imigrado colonial que se depara com a grande França (aqui acrescentaria por minha conta, Europa colonial) real e não idealizada e conseguiu transformar esta experiência em reflexões e análise social. Fanon trata da relação entre o colonizador (branco) e o colonizado (negro), a psicologia do colonizado, e finalmente desmistifica o complexo de inferioridade e o fator de dependência do colonizado para que se quebre este círculo vicioso e se perceba um mundo de originalidade e força essencial do africano ou seu descendente nas Américas. Inspirado e estimulado pelo movimento da negritude de Aimé Césare, martinicano como ele, Léopold Sédar Senghor, posteriormente presidente do Senegal, entre outros, a obra de Frantz Fanon é verdadeiramente um tratado aberto contra a opressão étnico-racial. Descreve a forma como esta opressão acontece e os resultados disso, resultados possíveis de serem encontrados até hoje na mídia impressa e eletrônica, e que ainda hoje, em pleno século XXI, grupos organizados lutam para desconstruir. Aos críticos e céticos, que atualmente apontam como racialistas os que como eu afirmam que ainda temos muito a avançar, e negam que com um olhar mais atento identificaremos na TV ocidental e principalmente brasileira a imagem e ideologia inferiorizante que Fanon aponta e desconstrói nos anos 50 do século passado, imagem bestializada, boçalizada do africano e seus descendentes no mundo ocidental, faço um singelo convite para que passem algumas horas a frente do televisor e com um mínimo de atenção observem nossa programação. Iremos identificar, entre outras situações, o ator global no horário nobre, Lázaro Ramos, na novela “Insensato Coração”, cujo papel é de um homem negro, classe média, bom profissional, (já não está bom? Diriam os representantes *freirianos), mas, cujo personagem representa modernamente o negro varão, com apetite sexual insaciável e inicialmente, no primeiro período da novela, irresponsável quanto a família e um desalinhado em relação a moral e aos bons costumes ditados pelo senso comum.
É importante observar que ao contrário de outras nações imperiais, a França colonial tinha a política de “integração” das colônias com a metrópole, isto a partir da partilha do continente africano pelas nações européias “desenvolvidas” em fins do século XIX, desta forma, conforme atesta o historiador Eric Hobsbawm em seu a “Era dos Impérios”, mesmo que a França tentasse transformar seus coloniais em franceses, principalmente dando uma série de facilidades aos “évolués” nativos, em todas as capitais ultramarinas francófonas, o operário branco seria sempre um comandante de negros, o mais modesto funcionário era um amo e era aceito como gentleman por pessoas que nem teriam notado sua existência em Paris ou Londres. Assim, mesmo na terra da propaganda ideológica da igualdade e fraternidade, ao tratar-se dos povos colonizados a ideologia era a da dominação (Eric J.Hobsbawm 1988).
*Cito aqui a teoria da miscigenação, do negro cordial, construída por Gilberto Freire.
O livro de Frantz Fanon, Pele Negra e Mascaras Brancas, é tão objetivamente critico em relação ao branco, que fala em linguagem de criança quando se dirige ao outro (o negro) quanto ao negro que veste a máscara branca para poder existir para o outro (o branco). É claro que se não houvesse a opressão do colonizador, ou do branco, nunca haveria a necessidade da máscara (afinal, foram cinco séculos de colonização e mais de 10 milhões de africanos sequestrados, espalhados a força, brutalizados e massacrados), porém, Fanon propõem-se a combater de frente essa atitude e com toda a sua força, todo o seu intelecto e toda a azeda sensibilidade, luta para que o mundo caminhe em direção a uma nova realidade.
Poderíamos prospectar que este viria a ser um assunto defasado atualmente, em época que temos um presidente negro no comando da maior economia global, digo temos, pois como afirma o também grande pensador brasileiro, professor Milton Santos (2000), vivemos uma democracia de mercado, e dentro desta democracia ocidentalizada somos geridos, direcionados por aqueles que comandam o mercado. E o que faz o mercado?Digo eu, este mercado pasteuriza com sua política neoliberal mundializada, culturas e formas originárias nas minorias e nos induz a assumir seu modos operandi, costumes e consumo. Quero com isso questioná-los; vivemos ou não com uma máscara forçada acima de nossa pele? Ainda que não tenha aqui convencido ao meu leitor de que vivemos neste novo século com nossa máscara imposta pelo colonizador moderno, lançarei mão de outro grande pensador e ativista social, este contemporâneo de Fanon, falo do professor e ex-senador Abdias do Nascimento, falecido a pouco. Ele, na mesma época que o livro “Pele Negra e Mascaras Brancas” era levado a público na França, fundava aqui no Brasil o “Teatro Experimental do Negro”, cujo objetivo maior era dar visibilidade as culturas afrocentricas no Brasil e também, possibilitar através da arte a discussão das causas e soluções para as mazelas vividas pelo negro brasileiro. Em 2011, ano de sua passagem, Abdias continuava firme no propósito de denunciar a invisibilidade do negro brasileiro e seu sistematizado extermínio pelas forças públicas de segurança do Brasil. Ainda no corrente ano de 2011, o Instituto Sangari e o Ministério da Justiça trouxeram a público os dados coletados sobre a violência no Brasil, estudo publicado com o nome de “Mapa da Violência”, nele constatamos que a juventude negra brasileira continua como o principal alvo do extermínio patrocinado. Segundo este estudo coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o número de pretos e pardos assassinados no Brasil aumentou entre 2002 e 2008, enquanto que o número de brancos vitimas desse tipo de crime caiu. Ainda segundo o mapa, baseado em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, morre proporcionalmente mais do que o dobro de negros do que brancos vitimas de homicídios no Brasil. Para complementar o raciocínio e concretamente constatar a atualidade de Fanon neste primeiro decênio do século XXI, e ainda utilizando o mapa da violência como fonte, é preciso observar e analisar o que está intrínseco nos dados apresentados, dados estes que dizem respeito a números assustadores do mapa.Em 2002, em cada grupo de 100mil negros, 30 foram assassinados, número que saltou para 33,06 em 2008. Já entre os brancos, o número de mortos por homicídio, que era de 20,06 por 100 mil, caiu para 15,09 em 2008.Em Estados como Paraíba e Alagoas, segundo o sociólogo Jacobo, os números são ainda mais estarrecedores: em Alagoas, para cada jovem branco assassinado, morrem mais de 13 jovens negros; na Paraíba são 20 jovens negros mortos para cada jovem branco.
Concluindo, é importante conhecer a atualidade da obra deste grande pensador martinicano que é Frantz Fanon, escrevo dele e de outros aqui citados no presente, pois, louvo a contemporaneidade de seus trabalhos que fazem destes, imortais. A manifestação de jovens gregos frente os ditames da União européia, a chamada primavera árabe, a revolta africana nos subúrbios franceses e ainda a critica do ultra-direitista Frances Jean Marie Le Pen em relação ao alto número de descendentes africanos na seleção francesa campeã de 1998, faz-me ter certeza da atualidade dos escrutínios de Frantz Fanon.
Bibliografia
1. TERRITÓRIO & SOCIEDADE,entrevista com Milton Santos.Ed.Fundação Perseu Abramo.2000.Autores, SEABRA.Odete,DE CARVALHO.Monica,LEITE.José Correia.
2. Mapa Da Violência- Ministério da Justiça (http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJEBAC1DBEITEMIDDD6FC83AAA9443839282FD58A5474435PTBRNN.htm)
3. A ERA DOS IMPÉRIOS,1875-1914/ERIC J. Hobsbawm. São Paulo.Paz & Terra,1988.
A Crise Internacional e os analistas
Dependendo do ponto de vista do observador da realidade internacional contemporânea e sua linha de interpretação, ele terá um amplo espectro de análise. Pois pode interpretar este momento que estamos vivendo como um momento de reformulação do sistema capitalista liberal, quero dizer, poderá entender que este seria um processo natural do desenvolvimento capitalista. Por outro lado um pesquisador como Eric Hobsbawn pode afirmar que estamos vivendo o fim de um longo século XIX, conforme descreve em sua trilogia, “Era dos impérios”, “Era dos capitais” e “Era dos extremos”.
Desta forma, teremos os dois teóricos pró-estadunidenses trabalhando para justificar o poderio imperial do gigante do norte, caso do Fukuyama, que afirma estarmos vivendo uma via de mão única, onde teriam falido as linhas políticas de tendência sociabilizantes em favor da politica capitalista determinada pelo império estadunidense, este, seria o grande vencedor politico atual do mundo moderno, como se a história tivesse fim. Acreditamos que sua linha de analise teórica é especialmente desenvolvida para justificar a opressão estadunidense sobre os países “menos” desenvolvidos econômica, tecnológica e culturalmente do ponto de vista do mundo ocidental. Por outro lado, a teoria do choque de civilizações de Huntington pode ser usada para mais uma vez justificar a supremacia civilizacional ocidental branca e “desenvolvida”. Porém, acreditamos que a polarização dos extremos culturais, onde a era da tecnologia da informação aproxima os povos e supostamente derruba fronteiras, também enfatiza a necessidade de se reconhecer localmente para agir mundialmente. Assim, com a polarização atual entre o velho mundo ocidental desenvolvido e o atual mundo emergente, tem potencializado a percepção das diferenças culturais.
Dentro desta perspectiva de revisão do posicionamento do mundo corporativo capitalista frente as novas exigências do mundo moderno, acreditamos que a tese dos teóricos citados tendem a justificar a necessidade de reposicionamento dos EUA frente a países em ascensão oriundos da antiga periferia do sistema, caso dos BRICS, assim como, relativizar seu liberalismo comercial onde tenderão a exercer maior controle sobre as grandes corporações que avançam com suas necessidades e predatoriedade sobre o sistema anteriormente pré-estabelecido.
Acreditamos que em curto prazo a politica internacional será ordenada de forma a contemplar as diferentes culturas exposta as vicissitudes consumistas do ocidente, onde as lideranças do oriente e do ocidente travarão uma guerra surda para determinar a supremacia de seu grupo original. Muitos teóricos e estudiosos atuais vislumbram a multipolaridade cultural do mundo atual, como fator principal de preocupação para a sobrevivência do estilo de vida ocidental. Cremos ainda que esta mudança e ascensão dos países antes periféricos, das culturais orientais miscigenadas com a cultura ocidental, estes modos de vida mesclados que vimos atualmente nos grandes centros urbanos, característicos das megalópoles, tem inicio com a queda do muro de Berlim e se acentua mais dramaticamente com a derrubada das torres gêmeas, motivadas por representantes de grupos historicamente oprimidos e demonizados que simbolicamente podemos entender como a reação dos oprimidos sobre os opressores. Cremos que a partir daí temos o inicio desta movimentação para a reorganização mesmo que simbólica da geopolítica internacional.
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